Nossas jovens crianças

Em relação à ampliação para nove anos do Ensino Fundamental, quero estar otimista, mas não consigo esconder a minha apreensão.

Os nove anos, começam a partir dos 6 anos de idade, no III período de jardim ou Classe de Alfabetização, que passa a ter a nomenclatura de 1º ano.

Vivenciei aqui em Brasília, há alguns anos, a corrida de pais para matricularem seus filhos em “grandes” escolas, justamente em Classes de Alfabetização nas quais os pequenos realizavam o famoso “VESTIBULINHO”. Presenciei crianças aflitas, angustiadas e pais ansiosos, disputando entre si, qual criança seria “ a melhor”. Na hora da prova, aqueles pequenos eram arrebanhados para uma sala de aula comum, com pessoas desconhecidas que lhes entregavam a “PROVA”. Sentados nas carteiras, os pezinhos inquietos, esses meninos aguardavam as ordens da professora, que lia cada questão para que os mesmos as executassem. Não vou expor aqui sobre os tipos de questões, mas algumas demonstravam total desconhecimento das escolas como por exemplo, as questões relativas aos conceitos básicos matemáticos.

Após a PROVA, saíam os pequenos ao encontro dos pais que tentavam disfarçar seus medos e vaidades com perguntas do tipo:

“- E aí filhinho, você foi bem? Respondeu a todas as questões?”

Para mim, eram momentos de horror! Pura perversidade, gratuitamente distribuída em nome de quê?!!

Agora minha apreensão se volta para as crianças de 5 anos.

Deus permita que as escolas não transfiram para elas, responsabilidades além das suas possibilidades e necessidades.

Afinal de contas, adultos trabalham e o trabalho das crianças é brincar. E brincar não quer dizer que não haja aprendizagem e, muito menos descompromisso dos educadores com a promoção do crescimento e desenvolvimento infantil. Brincar é uma forma de afirmar e renovar a vida, pois a brincadeira é tanto condição para que a vida aconteça quanto meio de expressão, compreensão e transformação. Brincando – não só a criança, mas também nós, os adultos – exercitamos a inteligência, a criatividade, o simbolismo, a emoção e a imaginação. Portanto, crianças de 5, 6, 7, 8, 9... etc devem brincar. Não podemos em detrimento do Ensino Fundamental, relegar as brincadeiras a um plano inferior ou propiciá-las apenas quando “sobra tempo”. Precisamos ter claros os objetivos da Ed. Infantil, conhecermos profundamente como se processa o desenvolvimento humano para não incorrermos no risco da “juvenilização” da infância. A cada dia nossas crianças são pressionadas, mais e mais, para que sejam jovens antes do tempo. Aliás, com o advento das plásticas, entre outras coisas, também nós, os adultos, somos pressionados para sermos jovens. Hoje em dia, as crianças preferem roupas e objetos eletrônicos a brinquedos, mostram-se fortemente preocupados com o consumo e com o supérfluo; voltam-se cada vez mais para atividades intelectuais em detrimento das atividades motoras, de artes e ao ar livre.

Passam horas à frente de um computador. Assim como para a maioria dos adultos que as cercam, o “ter” e “parecer ser” são mais importantes do que o ser. Entretanto, se pararmos para percebê-las melhor, veremos que essas crianças continuam pedindo atenção, cuidado, referenciais seguros, orientação e limites. Muitas possuem tudo ou quase tudo que o mundo material possa oferecer-lhes, mas não se sentem amadas e muito menos protegidas. Acredito que para uma criança sentir-se amada e protegida ela necessita receber a única coisa efetivamente de seu que o adulto tem: ele mesmo, que deve se manifestar através da experiência, do carinho, do interesse, dos valores e cuidados. Ao adulto cabe o importante papel de transmitir-lhes também uma herança cultural e moral, vendo e lidando com a criança como de fato ela é – distinguindo a criança real daquela imaginária.

Consuelo Carvalho de Araújo - Pedagoga especialista em educação
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