As vontades soberanas dos filhos

Certo dia, eu estava no pátio da escola após o final das aulas, quando um senhor idoso, cabelos branquinhos, entrou para buscar o neto, um garoto de 10 anos. Ele brincava com os colegas, a mochila jogada a um canto. O avô o cumprimentou com um “oi” que me pareceu amoroso. O garoto não respondeu, continuou na brincadeira! O avô então, o chamou e lhe disse:

— Vamos?! Preciso buscar sua avó que está no supermercado!

O garoto respondeu:

— Agora não! Quero brincar mais um pouco.

O avô sentou-se num dos bancos e avisou:

— Só mais dez minutos!

Ao final desse tempo, o garoto continuou a dizer que não queria ir embora! O avô insistiu e lhe disse:

— Não posso mais esperar! Pegue a sua mochila e vamos!

Assustei-me com a resposta do menino:

— Pega você!

O avô obediente, foi até o canto do pátio e pegou a mochila.

Já no portão de saída, o menino perguntou:

— Cadê o carro?

O avô lhe explicou que o carro estava na esquina por falta de vaga na porta da escola.

O garoto gritou uma “ordem”:

— Então vá buscar! Não vou lá não!

E foi aí que indignada interferi:

—Fulano, por favor, venha aqui!

Continuei:

—Por que está tratando o seu avô assim!? Pois bem, aqui nesta escola, você não pode fazer isso! Pegue a sua mochila, desculpe-se com seu avô e o acompanhe. Ele me atendeu. Em seguida fui conversar com aquele senhor, na tentativa de orientá-lo quanto à sua “convivência” com o neto. Fiquei muito triste ao ouvi-lo me dizer:

—Obrigado! É assim que ele faz comigo e com a sua mãe. Está ficando difícil!!

Eles se foram e eu fiquei pensando: “Meu Deus, se nessa idade, essa criança decide quando quer ir embora da escola, se ordena ao avô que traga o carro para a porta da escola, em casa ele deve decidir onde e o quê a família vai comer, qual filme se vai assistir, a que horas vai dormir e até se vai ou não fazer os deveres de casa da escola”!

Lembrando que o comportamento daquele garoto com seus professores e colegas na escola era de pura arrogância, me perguntei:

Por que algumas famílias não colocam limites na disciplina do dia a dia? Há famílias que se acovardam em relação aos seus filhos.

Onde isso estoura? Claro, dentro da escola. Por quê? Porque nós, professores, somos o primeiro adulto que dá ordem para ele. “Cadê o uniforme? ”, “Fez a tarefa? ”, “E o material? ” Tira o pé de cima da carteira”. O que ele faz? Parte para cima. E a família? É chamada à escola, mas percebemos que ela já está perdida em várias coisas. Nos tempos atuais, século XXI, temos de estabelecer uma parceria com as famílias e fazer a formação de pais e mães, porque uma parte deles está desorientada e, por isso, fica refém dos próprios filhos.

O que mais prejudica a formação é que os pais ao encontrarem seus filhos, ao final de um dia de intenso trabalho, querem compensar a ausência com atendimento de todas as vontades, acarretando uma grande distorção entre desejo e direito. Crianças e jovens não criam um processo de conquista, pois recebem coisas e mais coisas instantaneamente. E na confusão entre direitos e deveres, acham tudo muito óbvio. Conheço pais que nunca foram à Disney, ou a Porto Seguro na Bahia, mas o filho de 12 anos já esteve lá.

Penso que nossa sociedade atravessa hoje uma forte crise de alguns valores essenciais; há abalos cotidianos nos territórios de fraternidade, integridade e solidariedade. Ouço, às vezes, que estamos ultrapassados, com valores antigos que não mais são usados na atualidade. De fato, há valores tradicionais e valores arcaicos. Tradicionais são aqueles considerados universais como a amorosidade, a lealdade, a integridade, a disciplina e o esforço honesto.

Esses valores precisam servir de referência para nossas vidas. A disciplina tem sido compreendida de forma equivocada, porque grande parte dos pais, cultivam a ideia de que devemos poupar as crianças e os jovens de atividades intensas. E aí, observamos a confusão entre crescer com sofrer, esforço com sofrimento.

A escola precisa trazer a comunidade de responsáveis para dentro a fim de pensar e discutir esse tema.

Finalizando, gosto de citar uma frase popular que admiro: “O mundo que vamos deixar para os nossos filhos depende muito dos filhos que vamos deixar para este mundo. ”

Consuelo Carvalho


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